Temos recebido diversos emails de toda a
Península Ibérica a perguntar como combater, eliminar ou curar a
halitose. A nossa resposta é invariavelmente: “a taxa de êxito é muito
elevada porque o tratamento utilizado está diretamente relacionado com o
tipo de halitose diagnosticado”. A nossa missão tem sido expor a
verdade com o máximo rigor científico. Qualquer pessoa que reflita sobre
este tema compreenderá que esta é a única resposta autêntica e com
sentido.
Aclaramos os nossos pacientes que as expressões mau hálito ou halitose
possuem um escasso significado fisiopatológico (somente indicam uma
alteração do odor no ar expirado). É como perguntar como se cura uma
pessoa enferma/doente… a questão que se coloca de imediato é qual é a
doença que está presente nesse caso? Ainda que comercialmente seja muito
atrativo anunciar “a cura/solução para o mau hálito”, todos sabemos que
não existe na Medicina um medicamento ou um procedimento universal que
cure as doenças. O mesmo sucede com a halitose. Há mais de 80 causas com
origem em distintas partes do organismo. Sendo esta a realidade, não é
uma ingenuidade crer que há um tratamento para todas elas?
Há que combater a falta de ética comercial que tira proveito da
fragilidade de muitas pessoas. Estas, devido ao impacto grave que a
halitose provoca nas suas vidas, gastam centenas de euros em todas as
“novidades” amplamente divulgadas na comunicação social ou na Internet.
Alguns pacientes chegaram mesmo a referir que ainda que não acreditando
que, por exemplo, uma coisa tão ilógica e sem fundamentação científica
como um disco de aço, cure todas as halitoses, o desespero levou-as a
adquirir esse produto. Nos dias de hoje e tendo em conta o cenário
atual, julgo ser imperioso a criação de legislação e vigilância para a
defesa do consumidor.
Voltando à pergunta, primeiramente deve-se
descobrir qual é a causa do mau hálito: em ciência chama-se a obtenção
do diagnóstico etiológico. Se a causa não é claramente visível/detetável
(como nos casos de má higiene oral; focos infeciosos evidentes, etc.), é
aconselhável procurar uma consulta especializada de halitose. Neste
contexto, depois de descoberta a causa, simplesmente deve ser elaborado o
plano de tratamento correspondente à luz da Medicina atual (ex.: os
inibidores de bombas de protões geralmente são bem sucedidos no
tratamento do refluxo gastroesofágico, porém, se a causa é uma
hipossalivação grave elege-se um fármaco parassimpaticomimético
adequado). Depois de ser alcançado o diagnóstico etiológico (ex.:
halitose por hipossalivação), temos então um diagnóstico médico com a
respetiva correspondência terapêutica, pois sabemos exatamente qual a
doença/patologia. Isto é verdade, rigor e prova científica de êxito (e
não promessas fantasiosas aproveitando o desespero das pessoas que já
são vítimas por padecer de mau hálito).
Infelizmente, o desespero cega as pessoas
(incluindo até os racionais). Continuamos a ver pacientes que nos
visitam pela primeira vez possuindo una higiene oral irrepreensível mas
que continuam a utilizar elixires/colutórios orais ininterruptamente
várias vezes ao dia. Se racionalizarmos o problema, observamos que até
uma criança compreende. É como ter uma fonte de mau odor na cozinha e
compulsivamente pulverizar a sala com um desodorizante ou limpá-la um
líquido desinfetante.
É de salientar que até os elixires de uso
oral que contêm antimicrobianos, contêm certos desodorizantes como
menta, o que pode desencadear a ilusão de que se está a agir sobre a
origem do problema pois o mau odor parece que desaparece. No entanto,
penso que deveria ficar muito claro a todos que, se pouco tempo depois o
mau odor reaparece, a conclusão mais racional é que a origem não está
na boca. A simples libertação de um odor a menta – mais intenso que o
mau odor detetável – mascara-o por uns 15 minutos. Durante esses 15
minutos não houve um efeito eliminador mas sim um efeito dissimulador ao
nível do nariz (que deteta somente um odor de cada vez – prevalecendo
usualmente o mais intenso). A conclusão é a seguinte: antes de se
persistir irracionalmente com tratamentos que o paciente já verificou
que são ineficazes, deve procurar uma consulta específica com o objetivo
de averiguar a causa da halitose e o tratamento correspondente.